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Escrevendo Contos

 

O Nível de Grandiosidade em um Conto

Escrever sobre um personagem heróico nem sempre é uma tarefa tão difícil. O problema é quando ele vive numa comunidade ativa, como no caso do live, onde há outros personagens de jogadores interagindo. Como garantir que o seu mundo não vai desrespeitar o mundo do outro e ainda assim fazer parte do universo geral? Separei dois trechos que achei interessantes. Um é de uma história em quadrinhos, o outro é de um livro.

 

Vejam o trecho a seguir:


Thor: - Tu és a monarca milenar?

Monarca: - Sim. Os habitantes deste mundo respondem a mim. Os eventos ordenam que eu obedeça.

Thor: - Nada temas, mulher, pois desejo apenas informação.

Registrador: - Observação: dizem que você sabe de tudo o que transcorre neste mundo.

Senhor do fogo: - Uma tragédia de proporções cósmicas está por vir!

Registrador: - Sim.

Thor: - Eu vos suplico, conta para que possamos evitá-la!

Monarca: - Não sei se isso é possível. Thanos está prestes a disseminar a
Morte Final graças à posse da Pedra Iluminista.

 

(Marvel 2002 - "Além da Razão" - Panini Comics)


O trecho acima é do Thor, em uma busca galática. Seria ideal para uma campanha solo. Thor é filho de Odin, um semideus com grande poder e portador de um artefato poderosíssimo. Do seu lado, ainda há o Senhor do fogo, ex-arauto de Galactus, e o Registrador. Há duas falas nesse trecho que mostram a grandiosidade da saga: a fala do Senhor do fogo e a fala final da Monarca. Tudo está em grande escala. E, nesse caso, funciona. Thor não tem outros egos para competir com o dele (isso não é um comentário pejorativo). A vida dos outros heróis do universo continua, mesmo sem saber da busca do filho de Odin. Ele é o foco principal da história, tem um poder tão grande quanto a ameaça, e tudo combina.

 

Nos contos de live, esse não é o tipo de ação mais recomendada. Imagine que você joga o live no contexto da história do Thor, mas você é o Capitão América, um cara normal, sem poderes e com um escudo apenas. Vocês vivem no mesmo universo de jogo. Por que enquanto você, como Capitão América, se preocupa em salvar jovens que querem usar drogas, tem que fingir que está tudo bem enquanto o loiro cabeludo fortinho ali salva o universo três vezes por semana e o martelo sagrado dele absorve raios de energia?

 

Além do mais, se fosse num live, o personagem perderia profundidade. Thor está enfrentando um inimigo para salvar o universo e toda a existência. Super "básico". Agir com doses cavalares de poder é fácil. É muito fácil pegar um personagem qualquer, dar-lhe atributos fantásticos e ver ele realizar grandes atos. Mas e o conflito? Aquilo que torna o personagem interessante? Nesse ponto eu concordo com o Filipe "Devin" quando ele diz que "lá se vai mais um cara super-poderoso".

 

Se pararmos para pensar, nós sempre torcemos para o mais fraco - sempre. É muito mais interessante ver a fuga do pequeno Frodo, perseguido pelo gigantesco Troll, do que ver o Rambo com um helicóptero, duas metralhadoras e mísseis, atirando nos "malditos que mataram o Charlie" e explodindo tudo que respira e não se chama "Coronel Trautman".

 

Poder é até interessante. Mas acho que não podemos esquecer desse elemento tão importante, o "Conflito".

O próximo trecho eu acho muito mais interessante. E não, não é o famoso "nasce um herói". O Inigo ainda é criança nesse trecho, e torna-se um anti-herói, apesar de jogar no time dos bonzinhos.

Cortei as partes "românticas", para encurtar um pouco. Deixei apenas as
partes pricipais da minha análise.

 


- Ficarei com a espada - disse o nobre. - Não disse que não ficaria com ela. Apenas pagaria o que valesse.

Domingo virou-se bruscamente, os olhos flamejando.

- O senhor sofismou. Pechinchou. É a arte o que está na arma e o senhor vê apenas dinheiro. A beleza está ao alcance de sua mão, mas o senhor nada vê senão sua gorda carteira. O senhor nada perdeu; não há mais razão de permanecer aqui. Por favor, vá.

- A espada - disse o nobre.

- A espada pertence ao meu filho - disso Domingo. - Estou dando-a para ele agora. É dele para sempre. Adeus.

- Você é um camponês tolo, e eu quero a minha espada.

- O senhor é um inimigo da arte e tenho piedade de sua ignorância - disse Domingo.

Aquelas foram as últimas palavras que pronunciou.

O nobre matou-o naquele momento, sem um aviso sequer; um lampejo de espada do nobre e o coração de Domingo ficou em pedaços.

Inigo gritou. Não podia acreditar no que via; não tinha acontecido. Gritou novamente. Seu pai estava bem; logo estariam tomando chá. Não conseguia parar de gritar.

(...)

- Covarde!

O nobre virou-se, brusco.

- Porco!

Novamente a multidão abriu-se.

Aí está Inigo, segurando a espada de seis dedos, repetindo suas palavras:

- Covarde. Porco. Assassino.

(...)

- Eu, Inigo Montoya, desafio você, covarde, porco, assassino, asno, imbecil, a lutar.

- Tirem-no do meu caminho. Afastem a criança.

- A criança tem dez anos de idade e fica aqui mesmo - disse Inigo.

- Muita gente de sua família já morreu por hoje; já basta - disse o nobre.

- Quando você me suplicar pela vida, então me darei satisfeito. Agora,
desmonte!

O nobre desmontou.

- Saque sua espada.

O nobre desembainhou sua arma assassina.

- Dedico sua morte ao meu pai - disse Inigo. - Comece.

Eles começaram.

Não houve luta alguma, é claro. Inigo foi desarmado em menos de um minuto.

(..)

Desarmado, Inigo quedou-se, empertigado. Não disse uma palavra, nada
suplicou.

- Não vou matá-lo. - disse o nobre. - Porque você tem talento e é corajoso. Mas não tem modos e isso vai causar-lhe problemas sérios se não tomar cuidado. Por isso, vou ajudá-lo a atravessar a vida, deixando-lhe o conselho de que os maus modos devem ser evitados. - E com isso sua lâmina lampejou. Duas vzes.

E o rosto de Inigo começou a sangrar. Dois filetes de sangue escorreram-lhe da testa ao queixo, um em cada face. Todos os que presenciaram a cena viram que o menino estaria marcado pelo resto de sua vida.

Inigo recusou-se a cair no chão. O mundo desaparecia ante seus olhos, mas ele se recusava a cair no chão. O sangue continuou a correr. O nobre embainhou a espada, voltou a montar e foi-se embora.

Foi só então que Inigo permitiu que a escuridão o envolvesse.

Ele recobrou os sentidos, olhando no rosto de Yeste.

- Fui derrotado - murmurou Inigo. - Eu falhei.

Yeste só pôde dizer:

- Durma.

(...)

E então, uma manhã, Inigo se foi. Em seu lugar ficaram três palavras: "Eu preciso aprender", num bilhete preso ao seu travesseiro.

 

("O noivo da princesa", reescrito por William Goldman - Círculo do Livro)

Esse é um tipo de conto extremamente interessante para usar no live. O personagem tem um objetivo claro, tem um problema que pode gerar conflitos. Doc Comparato diz em seu livro, citando Henry James: "O que é uma personagem senão a determinação de um incidente? O que é um incidente senão a ilustração de uma personagem?".

 

Eu posso emprestar o livro para quem quiser saber como continua a história de Inigo Montoya, que se tornou o maior grão-mestre espadachim de seu tempo, mas que tinha problemas graves com bebida.

 

E o interessante é que Inigo NÃO É o personagem principal do livro. Sua história é rica, profunda, tem inúmeras possibilidades de desenvolvimento, mas não quebra o clima da trama principal, não ofende nem desrespeita os demais personagens e, acima de tudo, interessa.

 

Como disse o Daniel em um e-mail, o que existe são pessoas ordinárias em situações extraordinárias. E é isso que interessa. A palavra-chave para isso é "Conquista". Faça seu personagem conquistar as coisas, pequenas ou grandes. Se você quer uma espada legal, faça ele conquistar ela. Se quiser ser reconhecido por grandes batalhas, então lute, participa, morra ou sobreviva a grandes batalhas. Seja lutando num grande grupo ou enfrentando algum em um mano a mano, saboreie o crescimento do personagem. Não pule a "infância" ou a "adolescência" dele, para ir direto à fase adulta. Claro, me refiro à "infância e adolescência" como as fases onde ele nasce em um mundo de jogo e passa a conquistar coisas.

Se o personagem tiver um problema, é isso que vai fazer a existência dele valer à pena.

 

Impressões Pessoais

Quando eu escrevia para a lista, ainda como jogador, meus contos para o live foram amadurecendo. Por anos eu escrevi histórias onde haviam batalhas em abundância, até participar do jogo e pensar nos pontos que citei nos e-mails anteriores. E fora todo o lance da brincadeira "Eu sou Leafar", os meus contos retrataram mais o lado emocional do meu segundo personagem no live do que o lado combativo. Nos contos, Leafar está sempre fazendo referências a sua amada perdida, sempre tem o conflito "desisto de procurá-la ou não?". Para não dizer que ele não usou poder, no primeiro conto, o que conta seu surgimento, ele usa uma dose de poder absurdo, que conquistou através de décadas, para tentar libertar a amada do tal cristal.

 

No momento da criação dele para o live, do seu "nascimento no live", porém, ele tinha zero de poder, zero de dinheiro, zero de tudo. Era só um cara com uma espada herdada em um mundo novo para ele, onde nada do que ele teve no passado lhe servia. E me diverti muito conquistando amigos, formando alianças, chegando a conquistar ainda como jogador o posto de conde... depois, com o tempo e os pontos de experiência, comprei magia, escrevi um conto mostrando como Leafar tinha "recuperado" seus dons arcanos, previamente mencionados nos contos (aí entrou parte do planejamento do personagem)...

 

*lágrimas nos olhos* Aaaaah... bons tempos de jogador.

Citei-o porque foi um exemplo legal de amadurecimento em ON. No background, Leafar era "O Cara". E dentro da partida não. E eu vi como foi difícil conquistar cada item que eu citei na história dele. Ainda hoje eu pago o preço da empolgação, quando alguém chega em OFF e diz "Mas escuta, na história ele não tinha feito tal coisa? Por que você não faz agora? E aquela magia que explode o cara, dá pra me ensinar?".

 

Planejem o personagem. É um investimento a longo prazo. Deixem acontecer coisas ruins com ele. Dêem aberturas para que ele tenha conquistas. E lembrem-se de manter o "Nível Épico" sob controle.

 

por Rafael "Leafar"

 

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